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O GÊNIO EM CONCURSO ou MICHAEL, ELES NÃO LIGAM PARA NÓS ou RESGATANDO MACEDO DAS GARRAS DA PÉRFIDA MORENINHA

28 de setembro de 2009

RAÍZES

Brasileiro tem complexo de vira-lata. Segundo Nelson Rodrigues, isto acontece por conta da “inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. Em termos artísticos, nosso referencial máximo de qualidade costuma ser a cultura européia, com especial reverência para a francesa. Assim é que no Brasil, quando se fala em comédias, encenamos muito mais o francês Moliére do que os nossos comediantes históricos. Está certo, a comparação talvez não tenha cabimento porque são coisas muito diferentes. E também não se trata de diminuir o valor do clássico francês em favor dos nacionais. Mas porque, pelo menos ao lado destes clássicos, não encenamos também a nossa dramaturgia? Independente de juízos de valor, precisamos admitir que só ela dá conta de certas questões que são… brasileiras! De fato, como podemos esperar que um francês fale, por exemplo, das nossas mazelas históricas no campo da política? Ou que ele use para isso do humor debochado, escrachado e irresponsável com o qual nos identificamos?

Entre os comediógrafos clássicos brasileiros temos razoavelmente encenados Martins Pena (1815-1848), e Artur Azevedo (1855-1908). O primeiro comparece quase sempre com O Noviço (1853), e o segundo raramente vai além de O Mambembe (1904) ou A Capital Federal (1897). É preciso frisar que mesmo estes dois autores possuem muitos outros bons e apropriados textos. Mas o eclipse vai além. Que dizer de França Júnior (1838-1890), autor das deliciosas “Como Se Fazia um Deputado” (1882) e “As Doutoras” (1889), entre outras, que nem sequer é conhecido da maioria das pessoas? Ou das Revistas de Ano, movimento importantíssimo do século XIX que está na base de tudo o que se faz em termos de comédia hoje no Brasil? Pra não falar de autores consagrados no romance que também possuem textos teatrais solenemente ignorados, como Machado de Assis (Quase Ministro, de 1864, por exemplo) e José de Alencar (O Demônio Familiar, de 1857).

Decidimos nos ater a outro desses autores pouco conhecido pelas suas comédias, Joaquim Manuel de Macedo, e a um texto seu muito eficiente em criticar nossa forma de fazer política e nosso próprio complexo de vira-lata, A Torre em Concurso, escrita em 1862. Macedo é mais conhecido pelo açucarado romance A Moreninha, ficção bem distante do veneno destilado no texto teatral em questão.

A linguagem do século XIX é um empecilho nos dias de hoje, por soar empolada? Porque não adaptá-la para os nossos dias, assim como a própria trama? Essa traição pode nos tornar mais fiéis à brincadeira e à essência do que o autor quis criticar há 150 anos atrás. Esse texto não deve ter soado pomposo quando foi escrito e não deve soá-lo agora. (E muito do que vemos de Moliére não tem também a linguagem atualizada por obras de traduções contemporâneas?)

A PEÇA

Quando Joaquim Manuel de Macedo escreveu o original no qual nos baseamos para fazer essa peça, os ingleses melhor representavam o ideal de civilização para o brasileiro médio e eles que são cultuados naquele texto; hoje são os norte-americanos. No original, o objeto de desejo que traria status á cidadezinha retratada seria uma nova torre para a igreja; hoje, pensamos em uma multinacional do ramo da computação, expoente da modernidade. Foi assim, estabelecendo relações entre o que havia naquele Brasil e o que há no Brasil de hoje – ainda tão iguais em alguns aspectos – que pautamos a nossa adaptação, criando O Gênio em Concurso. O tema básico do original, nosso complexo de vira-lata, está lá, intacto, assim como o sub-tema dos procedimentos usuais de nossa classe política.

Nos permitimos atualizações de expressões e gags, incluindo até referências a propaganda política tal como é feita hoje, e outras citações atuais tangenciadas pelo texto. E procuramos, acima de tudo, nos divertir com a brincadeira.

Um estudo sobre a estrutura da comédia (especialmente com Vladimir Propp) e pesquisas teóricas e práticas sobre a comédia popular serviram de fundamentos para essa viagem. Recursos já explorados na comédia anterior montada pelo grupo como o travestismo (masculino e feminino), as caracterizações debochadas e quase grotescas e o rodízio de atores objetivando reforçar o caráter lúdico, foram aprofundadas, e recursos novos foram incorporados como a música e a utilização com menor escrúpulo de tiradas picantes e abusadas, típicas do humor popular.

A trama retrata Cabelinhos, “portentosa” cidade do interior do Brasil, cujo único problema é não constar em nenhum mapa (inveja dos cartógrafos, com certeza…). A peça flagra exatamente o momento em que isto está para mudar. Cabelinhos vai contratar um gênio norte-americano para ele reproduzir por aqui o mesmo desenvolvimento atingido pelos States. E a cidade vai, finalmente, acabar com seu complexo de inferioridade, fazendo frente à Nova York, Washington e outras grandes.

O GRUPO

O Grupo de Teatro Meio tem como proposta equilibrar a pesquisa e a elaboração cênica com a preocupação em se comunicar efetivamente com seu público, oferecendo espetáculos empenhados no jogo cênico e na troca com esse mesmo público. Pensamos mais no prazer em assistir uma peça – mesmo que ela fale sobre algo incômodo – que em códigos cifrados da alta intelectualidade.

O grupo nasceu em 2004 e está, com O Gênio em Concurso, em sua terceira montagem profissional. Montou inicialmente Ralé Ainda Pulsa, adaptação do texto Ralé de Máximo Gorki, encenada inicialmente no Teatro Sérgio Cardoso e depois nas ruínas do Castelinho da Rua Apa, próximo ao centro da cidade de São Paulo. De um drama realista passou para o humor cruel e cerebral de Luigi Pirandello, fazendo novamente uma adaptação, desta vez do texto Assim é (se lhe parece), com a montagem Assim Parece, que cumpriu temporada no Teatro dos Satyros. Finalmente realiza nesta montagem de O Gênio em Concurso, pela terceira vez, uma adaptação, agora de A Torre em Concurso de Joaquim Manuel de Macedo.

O Gênio em Concurso

O Gênio em Concurso

Inaugura em 2009, em sistema de cooperativa entre os integrantes do grupo, sua sede própria no bairro da Barra Funda. O espaço se chama Teatro Lá em Casa e procura reproduzir em seu ambiente os ideais de proximidade e comunhão do grupo com o público, remetendo à informalidade e ao aconchego de uma casa.

Platéia

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2 Comentários leave one →
  1. Claudete Lima permalink
    29 de setembro de 2009 19:17

    Só indo conferir, Espetáculo, Espaço, etc. Tudo está muito gostoso e aconchegante. Vem tomar um cafézinho com a gente!!

Trackbacks

  1. Hino de Cabelinhos « Teatro lá em Casa

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